A teoria da vantagem comparativa de David Ricardo nos diz que um agente econômico produz um bem a um custo de oportunidade menor que outro. O foco é buscar a especialização para aumentar a eficiência. Essa lógica conversa com o fordismo, onde cada agente executa uma etapa do processo produtivo.
O Brasil seguiu essa lógica, se especializando em commodities e produtos de baixo valor agregado, enquanto países como Estados Unidos, China e membros da União Europeia produzem tecnologia — sem abrir mão, inclusive, de suas próprias commodities.
À primeira vista, esse arranjo parece eficiente. Alguns países exportadores de commodities chegaram a experimentar períodos de crescimento acelerado. A Venezuela, por exemplo, construiu sua economia com base no petróleo. Durante o boom, experimentou crescimento acelerado. Mas, com a queda dos preços nos anos 1980, sua estrutura altamente dependente ficou exposta: a receita despencou, a inflação disparou e a economia entrou em crise.
Infelizmente, a realidade é mais complexa do que a teoria sugere.
Segundo Raúl Prebisch, “o comércio internacional tende a reproduzir as desigualdades entre países industrializados e países produtores de matérias-primas”. Ou seja, a especialização pode não ser apenas uma escolha eficiente, mas um fator de perpetuação de desigualdades.
O caso brasileiro ajuda a ilustrar essa dinâmica. Até o início dos anos 1980, o país possuía o maior e mais diversificado parque industrial da América Latina. Esse processo não foi espontâneo. Ao longo de cinco décadas, o Brasil construiu instituições e empresas estratégicas como a Embrapa, a Embraer, a Companhia Siderúrgica Nacional e a Petrobras — além de infraestrutura científica e tecnológica, como o Centro de Lançamento de Alcântara.
Em 1980, o Brasil ocupava a 6ª posição mundial em paridade de poder de compra, segundo dados do FMI (WEO 2022). Em 2022, caiu para a 9ª posição.
O que mudou ao longo desse período?
Durante o governo Costa e Silva, o PIB cresceu, em média, cerca de 6,5% ao ano — ritmo que não se repetiu pós anos 1990.
Esse desempenho esteve associado, entre outros fatores, à formação da indústria de base, à redução da dependência externa e ao fortalecimento do mercado interno.
A década de 1980, no entanto, trouxe choques relevantes. A segunda crise do petróleo, impulsionada pela Revolução Iraniana (1979–80), elevou drasticamente os preços da energia, pressionou a inflação global e contribuiu para o aumento das taxas de juros internacionais — impactando fortemente economias emergentes.
Nos anos 1990, a resposta predominante foi a adoção das diretrizes do chamado Consenso de Washington, com maior abertura econômica e redução do papel do Estado na indução industrial.
Como observa Ha-Joon Chang, “os países desenvolvidos chutaram a escada que usaram para subir”, limitando o espaço de política econômica para as nações em desenvolvimento.
Na prática, estamos falando de proteção à indústria dos países do eixo dominante e de restrições à indústria do mundo em desenvolvimento.
Nesse contexto, consolidou-se a ideia de que o comércio internacional é, essencialmente, um jogo de ganha-ganha. Na prática, porém, os resultados mostram que os ganhos tendem a ser distribuídos de forma desigual.
O Brasil, por exemplo, passou por um processo relevante de desindustrialização. Em 1986, a indústria representava cerca de 36% do PIB — participação que caiu de forma significativa nas décadas seguintes.
Enquanto isso, a China seguiu um caminho distinto: manteve planejamento de longo prazo, investiu em capital humano, fortaleceu sua base industrial e se inseriu estrategicamente nas cadeias globais de valor.
Hoje, segundo o FMI, a China é a segunda maior economia do mundo, enquanto o Brasil ocupa a 11ª posição.
O comércio internacional, portanto, está longe de ser neutro. Ele reflete estruturas de poder, capacidades tecnológicas e condições históricas específicas.
Mais do que um simples jogo de trocas, trata-se de um sistema onde alguns países definem as regras — seja pelo domínio tecnológico, pelo controle das cadeias produtivas, pela diplomacia da dívida ou, em última instância, de forma bélica.
E é nesse ponto que a ideia de “ganha-ganha” começa a perder força. Em um ambiente marcado por assimetrias, o comércio pode até gerar ganhos, mas dificilmente os distribui de forma equilibrada.
Josué Coimbra é um economista formado pela PUC-SP.
