Em Formação Econômica do Brasil (1959), Celso Furtado argumenta que a industrialização brasileira concentrou renda, investimentos e atividade econômica no Sudeste, especialmente em São Paulo.
Nas últimas décadas, porém, a economia brasileira passou por mudanças importantes, impulsionadas principalmente pelo avanço das commodities, com destaque para o agronegócio, alterando a distribuição dos investimentos e da atividade econômica pelo território nacional.
Vamos analisar como evoluiu a participação das regiões brasileiras na composição do PIB entre 2009 e 2023.
Antes de olharmos os números, vamos elencar os principais fatos ao longo desse período que podem ter influenciado o crescimento do PIB. Na linha do tempo abaixo temos fatos ocorridos tanto na esfera nacional como internacional que puderam ter interferência na produção e comercialização de bens e serviços.

Consideramos os fatores acima os mais significativos que puderam impactar o PIB do país.
Agora, vamos passar a analisar os dados do PIB divulgados pelo IBGE que foram trabalhados com ferramenta de BI para obtermos tabelas que nos permitem observar as variações e tirar conclusões.
Trabalhamos com a participação de cada Região na composição do PIB nacional por ano. E nosso objetivo aqui é verificar as variações dessa composição.
Portanto, uma Região apresentar uma participação menor em 2023 do que tinha em 2009 não significa que encolheu, mas que cresceu menos que outras Regiões ou Estados.
No quadro abaixo iremos iniciar a verificação dessas variações por região do país:

Vemos aqui ano a ano a participação de cada Região do país na composição do PIB do país e na parte de baixo do quadro, temos alguns cálculos que nos permitem verificar o comportamento da participação de cada região na composição do PIB nacional.
Demonstramos a Variação entre 2009 e 2023 onde vemos que a única região que perdeu participação foi a Sudeste com queda de 3,3%. Com ganho na participação para todas as outras regiões, com destaque para o Centro-Oeste com ganho de 1,3%, o Sul com 0,9% e Norte com 0,8%.
O Nordeste cresceu pouco nessa participação, mas teve um resultado positivo de 0,3%.
Nas linhas mais abaixo, temos os índices máximos, mínimos e a repetição dos últimos de cada região ao longo da série. Para o Sudeste, o índice máximo é de 2009 e o mínimo em 2020 mostrando uma tendência de queda com um repique após o período da Pandemia.
Já o Centro-Oeste apresenta o máximo em 2023 e os índices mínimos em três períodos até 2013, mostrando evolução.
Na última linha criamos uma métrica que conforme a fórmula a seguir cuja interpretação do resultado segue a régua mais abaixo:


Essa métrica permite identificar a posição do índice mais recente dentro da série histórica. Vemos que a região Sudeste termina o ciclo mais próximo dos mínimos enquanto a região Centro-Oeste está próxima das máximas. As demais regiões assumem posições intermediárias conforme pode ser verificada na régua acima.
Vamos agora aprofundar essa análise observando as variações nos Estados dentro das Regiões que figuraram nas pontas e inferior e superior de nossa régua.

São Paulo foi o Estado que mais perdeu participação na composição do PIB com uma retração de 2,3% que é quase o tamanho de todo o PIB do Mato Grosso. A variação do Rio de Janeiro também é significativa com retração de 1% na composição do PIB do país.
Na outra ponta, Mato Grosso cresceu 0,9%, considerando o seu tamanho, a elevação é muito significativa pois saiu de 1,6% para 2,5%. Mato Grosso do Sul, que está na máxima da série também teve um aumento significativo, proporcionalmente ao seu tamanho com 0,5% de elevação na participação, saindo de 1,2% para 1,7%.
Esses números demonstram perda relativa de participação de estados historicamente associados à atividade industrial e ganho de participação de estados fortemente vinculados ao agronegócio e às exportações de commodities. Setores como Construção Civil, Naval e Petróleo também tiveram impactos negativos pela atuação da Lava Jato.
Houve portanto uma desconcentração de investimentos e atividade econômica entre 2009 e 2023.
A questão que se levanta é se essa mudança representa apenas um ciclo favorável às commodities ou se estamos diante de uma transformação estrutural e duradoura da economia nacional e também e talvez a mais importante é como transformar essa desconcentração de em uma efetiva redução das desigualdades de renda entre os cidadãos brasileiros.
Paulo Piacitelli: Economista e consultor em finanças e gestão empresarial, possui mais de três décadas de experiência em governança corporativa, compliance e planejamento estratégico. Atua como Delegado do CORECON-SP na região de Botucatu e traz no currículo grandes marcos institucionais, como a estruturação da controladoria e o apoio à abertura de capital da Sabesp em São Paulo e Nova Iorque. Com sólida formação em Mercado de Capitais e Macroeconomia, possui grande experiência em Business Intelligence (BI), aplicando ferramentas analíticas para transformar informações em decisões estratégicas, eficiência operacional e resultados sustentáveis para as organizações.
