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Artigo de Economista por Josué Coimbra – O Brasil que Parou e a Ásia que Planejou

O mundo econômico é implacável. Em 1980, os Estados Unidos, a União Soviética e o Japão eram as maiores economias do mundo, enquanto o Brasil figurava na nona posição. O país crescia cerca de 2% ao ano, após décadas de expansão média próxima a 7% entre 1950 e 1970, e possuía o parque industrial mais diversificado da América Latina. À época, a indústria representava cerca de 36% do PIB. Em anos recentes, essa participação recuou para aproximadamente 21,3%, segundo o IBGE, evidenciando perda de dinamismo estrutural.

A Índia e a China, naquele período, não figuravam entre as maiores economias globais. Atualmente, a China ocupa a segunda posição e a Índia já está entre as cinco maiores economias do mundo.
Essa transformação não é fruto do acaso. Na década de 1980, o Brasil enfrentou forte instabilidade macroeconômica, marcada por inflação elevada e restrições externas decorrentes do cenário internacional pós-crise do petróleo.

O país passou a conviver com um padrão recorrente de políticas de curto prazo, em um contexto marcado pela hiperinflação. Entre 1986 e 1990, o Brasil implementou cinco planos econômicos — Cruzado I e II (1986), Bresser (1987), Verão (1989) e Collor I (1990) — baseados, em grande medida, em congelamentos de preços e mudanças monetárias.

A instabilidade de preços não apenas corroía o poder de compra, mas também inviabilizava o planejamento econômico, desorganizando os investimentos produtivos e comprometendo a coordenação de políticas públicas e a própria capacidade de formulação de estratégias de longo prazo.

Nos anos 1990, o país promoveu abertura econômica e estabilização monetária com o Plano Real. Embora essenciais para o controle inflacionário, essas medidas não foram acompanhadas por uma estratégia consistente de desenvolvimento industrial. Como resultado, houve redução da participação da indústria no PIB e perda de competitividade em setores estratégicos. Em contraste, a China adotou um modelo de crescimento baseado em abertura gradual, planejamento estatal e fortalecimento da base industrial, combinando inserção internacional com políticas domésticas de longo prazo.

Além disso, países asiáticos como a Coreia do Sul estruturaram políticas industriais ativas, com foco em ganhos de escala, inovação tecnológica e inserção em cadeias globais de valor. O investimento contínuo em educação, especialmente nas áreas de ciência e engenharia, aliado a políticas de incentivo à exportação, criou um ambiente propício ao aumento da produtividade e à sofisticação econômica — elementos que não foram perseguidos com a mesma consistência no Brasil.

Os efeitos dessas escolhas persistem. A redução da taxa de juros, por si só, não resolve um problema estrutural. É necessário avançar em uma agenda de desenvolvimento que fortaleça o ambiente de negócios, amplie a produtividade e estimule o investimento. Isso inclui o fortalecimento do pequeno e médio empresário, relevante na geração de empregos, a reestruturação do sistema fiscal e tributário e o aumento da eficiência do gasto público. Além disso, é fundamental investir em capital humano, com foco no ensino básico, etapa decisiva para a formação de competências.

Por fim, a ampliação dos investimentos em infraestrutura é condição essencial para elevar a competitividade e reduzir custos produtivos. O desafio brasileiro não foi falta de potencial, mas de direção. Em um cenário global cada vez mais competitivo, crescer deixa de ser uma questão de oportunidade e passa a ser resultado de estratégia.

 

Josué Coimbra é um economista formado pela PUC-SP. Atua como colunista em portais financeiros, focando em desindustrialização, desenvolvimento econômico e o impacto da inteligência artificial. Sua análise combina rigor histórico com uma abordagem didática para simplificar o mercado financeiro e as políticas públicas.
Josué Coimbra
Registro Corecon-SP 38061[/box]