Em uma perspectiva schumpeteriana, o empreendedor é o grande agente da transformação econômica. Diferentemente das abordagens tradicionais, que enfatizam o capital e a poupança como motores do crescimento, Joseph Schumpeter atribuiu papel central à inovação. Em Capitalism, Socialism and Democracy, escreveu que “o processo de destruição criativa é o fato essencial do capitalismo”.
E quem promove essa destruição? O empreendedor. Não apenas aquele que abre uma empresa, mas o indivíduo capaz de introduzir novos produtos, mercados, métodos de produção e formas de organização.
Contudo, quando aproximamos essa visão das relações de trabalho contemporâneas, algo parece não fazer sentido.
Não são raros os executivos que afirmam desejar pessoas com mentalidade de dono, visão empreendedora e capacidade para suceder seus líderes. Tais declarações remetem imediatamente à teoria do capital humano e à valorização do conhecimento e da experiência.
Entretanto, a prática parece, por vezes, caminhar em outra direção.
Muitos processos seletivos parecem buscar algo que sequer aparece nas descrições das vagas: previsibilidade. Trajetórias lineares, perfis facilmente classificáveis e experiências convencionais frequentemente parecem ser mais valorizados do que percursos marcados por rupturas, mudanças de carreira ou experiências empreendedoras.
Perguntas como “você já foi dono de empresa, será que consegue trabalhar em equipe?” revelam uma aparente contradição. Afinal, se a experiência constitui uma forma de capital humano, por que determinadas trajetórias são recebidas com desconfiança?
Talvez Álvaro de Campos tenha capturado esse dilema muito antes dos departamentos de recursos humanos, ao escrever: “Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?”.
Em Economy and Society, Max Weber descreveu a burocracia como uma forma de organização baseada em regras, hierarquia, especialização e previsibilidade. Talvez resida aí uma das tensões do capitalismo moderno. Enquanto Schumpeter necessitava de indivíduos capazes de promover a destruição criativa, Weber compreendia a importância das estruturas burocráticas para assegurar estabilidade e racionalidade.
Existe algo que a universidade, por mais valiosa que seja, não consegue entregar: experiência. A maturidade profissional, a capacidade de julgamento e o discernimento não são produtos exclusivos da academia, mas resultados da prática, dos erros, dos acertos e das mudanças de trajetória. Se o capital humano é o maior ativo das economias modernas, talvez devêssemos aprender a valorizar mais aqueles que carregam consigo não apenas diplomas, mas histórias.
A perda desse capital humano não aparece nos balanços das empresas. Trata-se de um custo invisível, mas potencialmente elevado. Ao desvalorizar experiências empreendedoras, trajetórias não lineares e profissionais mais experientes, criam-se incentivos que podem resultar em menor disposição para assumir riscos, desperdício de conhecimento, perda de produtividade, redução da mobilidade social e menor capacidade de inovação. Talvez a empresa individualmente perca pouco. Mas a sociedade perde muito mais.
No Brasil, essa tensão parece ser agravada por outros fatores, como o etarismo velado e a dificuldade em reconhecer o valor de carreiras heterodoxas, marcadas pela passagem por diferentes setores, funções e experiências.
Talvez a grande ironia seja que, embora a economia tenha se tornado mais sofisticada e intensiva em conhecimento, muitas organizações ainda preservem traços herdados do fordismo: padronização, conformidade e busca pela previsibilidade. Mudaram-se as ferramentas, introduziu-se o home office e ampliaram-se os debates sobre qualidade de vida, mas permanece a busca por indivíduos facilmente enquadráveis.
Se Schumpeter estava correto ao afirmar que o empreendedor é o agente da transformação econômica, talvez seja oportuno perguntar se realmente desejamos indivíduos com espírito empreendedor ou apenas versões cuidadosamente domesticadas desse espírito.
Porque o capitalismo pode admirar Schumpeter em seus discursos. Mas suas organizações continuam, em larga medida, sendo profundamente weberianas.
Josué Coimbra é economista formado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
