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O comércio bilateral entre Brasil e China somou US$ 171 bilhões em 2025, com a China como principal parceira comercial do Brasil pelo décimo sexto ano consecutivo (CEBC, 2026). É tentador ler o número como prova de sucesso mútuo. Toda relação econômica de escala gera ganhadores, riscos e assimetrias dos dois lados — entender essa dupla contabilidade é o que permite pensar políticas que ampliem os benefícios, em vez de apenas celebrar o volume. 

O que o Brasil ganha 

Do lado brasileiro, os benefícios são reais. O superávit comercial com a China, de US$ 29,1 bilhões em 2025, sustenta parte relevante do saldo externo do país (CEBC, 2026). Como o preço dos produtos chineses importados caiu 11% entre 2019 e 2024, enquanto os de outras origens subiram 24% (Banco Central do Brasil, 2025), o consumidor e a indústria brasileira ganham acesso a insumos e bens de consumo mais baratos. Some-se o investimento chinês, cujo estoque somou US$ 53,6 bilhões em 2023 (ApexBrasil, 2025) e impulsionou projetos como a fábrica da BYD na Bahia, gerando emprego e alguma capacitação industrial. 

O que o Brasil perde 

O outro lado da moeda é a chamada “reprimarização” da pauta exportadora: soja, minério de ferro e petróleo dominam as vendas à China, enquanto o país importa bens industriais cada vez mais sofisticados. Essa especialização reforça um padrão de baixo ganho de produtividade, típico de economias que exportam recursos naturais sem desenvolver capacidades tecnológicas próprias. Há ainda risco de concentração: depender de um único comprador para parcela tão grande das exportações deixa o Brasil vulnerável a desacelerações chinesas ou mudanças na política industrial de Pequim. 

O que a China ganha 

Do ponto de vista chinês, o Brasil é peça central da segurança alimentar e energética: garante fornecimento estável de soja, minério e petróleo a preços competitivos. A liquidação comercial em moedas locais também serve ao objetivo chinês de reduzir exposição ao dólar. Além disso, o Brasil funciona como plataforma de entrada para a América Latina, especialmente diante das tensões comerciais com os Estados Unidos. 

 

O que a China arrisca 

Para a China, o risco está em depender de um fornecedor sujeito a oscilações cambiais, safras e instabilidade política, além de pressões protecionistas. Há também risco de críticas: investimentos concentrados em commodities, sem contrapartidas em transferência de tecnologia, alimentam narrativas de “neocolonialismo” que desgastam a imagem chinesa. 

Janelas de oportunidade compartilhadas 

Aqui está o ponto mais promissor: os interesses de ambos os países podem convergir em uma agenda de inovação. Para o Brasil, atrair centros de P&D chineses e negociar metas de conteúdo tecnológico local em novos investimentos, como os da BYD, é caminho direto para elevar produtividade. Para a China, associar-se a universidades brasileiras reduz custos de pesquisa e fortalece sua imagem como parceiro de desenvolvimento, não apenas comprador de commodities. O primeiro acordo acadêmico entre a Capes e a Universidade de Beihang, assinado em fevereiro de 2026 (Capes, 2026), mostra que esse caminho já começou, ainda que timidamente. 

Conclusão 

A relação Brasil-China não é um jogo de soma zero, mas também não é automaticamente ganha-ganha: os benefícios de hoje coexistem com riscos estruturais para os dois lados. O  

desafio de política pública para o Brasil é negociar essa parceria com mais estratégia — trocando acesso a mercado e matérias-primas por cooperação tecnológica concreta — em vez de tratá-la apenas como fonte de superávit comercial. O verdadeiro sucesso será medido não apenas pelo volume de comércio, mas pela capacidade de gerar inovação e desenvolvimento para ambos os países. 

Referências 

  • CEBC – Conselho Empresarial Brasil-China. Comércio Brasil-China atinge recorde de US$ 171 bilhões em 2025. Janeiro de 2026. 
  • Banco Central do Brasil. Relatório de Inflação, junho de 2025. 
  • ApexBrasil. Perfil de Comércio e Investimento China 2025. Maio de 2025. 
  • Capes. Capes assina primeiro acordo com uma universidade da China. Fevereiro de 2026.

Minibiografia:  Eduardo Rangel de Moraes é economista e mestrando em Economia e Mercados, especialista em Relações Internacionais e em Política Internacional e Estudos Brasileiros. Atua nas áreas de economia aplicada, finanças e análise econômico-financeira. Desenvolve pesquisas sobre comércio internacional, investimentos estrangeiros e relações econômicas Brasil-China.