Logo Corecon-SP

O mundo moderno nos entrega facilidades, tecnologia e novos formatos de entretenimento. Há trinta anos, nossa interação ocorria pela TV, por jogos físicos e pelo contato humano direto. Hoje, a automatização — não apenas a inteligência artificial — reorganiza a vida cotidiana e, silenciosamente, redefine nossos hábitos sociais e econômicos.

Um dos efeitos mais profundos dessa transformação está no consumo. Se antes o “templo de compras” eram os centros comerciais e shoppings centers, agora esse papel é desempenhado pelas redes sociais. Elas deixaram de ser apenas espaços de entretenimento e tornaram-se verdadeiras praças de serviços, onde anunciamos, somos encontrados e, principalmente, compramos. Cada rolagem de tela se converte numa vitrine personalizada, calibrada por algoritmos que conhecem nossos padrões emocionais melhor do que nós mesmos.

Esse novo ambiente não afeta apenas o consumo: altera também a relação das pessoas com o trabalho e a educação. Setores como transporte e indústria já enfrentam falta de mão de obra, enquanto cursos longos perdem espaço para formações rápidas e voltadas ao curto prazo. O imediatismo, antes restrito ao entretenimento, agora molda expectativas profissionais e educacionais.

A consequência econômica mais visível é o avanço do consumo impulsivo. Não compramos pelo que precisamos, mas pelo que nos é sugerido. E isso aprofunda a vulnerabilidade financeira: grande parte dos consumidores permanece presa ao cheque especial e ao crédito rotativo, mecanismos que drenam renda e reduzem bem-estar.

Os dados reforçam a mudança. Um relatório da Nielsen|Ebit mostra crescimento de 82% no e-commerce de alimentos e bebidas, sinalizando que práticas tradicionais — como a confraternização no bar ou a ida ao supermercado — estão sendo substituídas pela comodidade digital. Para 2025, a ABComm projeta faturamento acima de R$ 234 bilhões no comércio eletrônico, com expectativa de chegar a R$ 343,9 bilhões em 2029.

Alguns defendem que regular algoritmos seria a saída. Mas ignoram que o desejo humano sempre encontra atalhos — e cada barreira só aumenta a utilidade marginal da vontade.

Nesse novo mundo em que a tecnologia promete nos libertar do trabalho, acabamos usando o tempo de ‘ócio produtivo’ descrito por Paul Lafargue não para viver melhor, mas para ampliar ainda mais a acumulação de capital. A produtividade dispara, o consumo explode — mas a renda e as condições do trabalhador permanecem estagnadas.