A dívida pública bruta brasileira alcançou aproximadamente 78,7% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2025. Projeções do Tesouro Nacional indicam que esse percentual pode se aproximar de 95% ao final da década. Para parte do debate econômico, essa trajetória seria resultado principalmente do crescimento dos gastos públicos, gerando preocupações sobre a capacidade do governo de honrar o pagamento dos juros e do principal da dívida. No entanto, uma análise mais cuidadosa sugere que a dinâmica da dívida pública brasileira é decisiva e fortemente influenciada pelo nível das taxas de juros.
A experiência histórica recente brasileira mostra que episódios de deterioração da percepção de risco já ocorreram sem que isso resultasse em ruptura das obrigações financeiras do Estado. No final do governo Fernando Henrique Cardoso, em 2002, o chamado risco Brasil atingiu níveis próximos de 4000 pontos-base, refletindo intensa instabilidade econômica e política. Ainda assim, o país preservou o pagamento de sua dívida pública e, nos anos subsequentes, conseguiu reduzir significativamente o risco soberano. Essa trajetória reforça a importância de analisar a dinâmica do endividamento público a partir de uma perspectiva histórica e estrutural, evitando interpretações baseadas apenas em avaliações conjunturais.
Os dados recentes ajudam a qualificar esse debate. Em 2025, segundo informações do Banco Central, o déficit primário — que considera receitas e despesas sem incluir o pagamento de juros — foi de cerca de R$ 55 bilhões, equivalente a 0,43% do PIB. Já o déficit nominal, que inclui o pagamento de juros da dívida, atingiu aproximadamente R$ 1,007 trilhão, ou 7,91% do PIB ou seja 99,49% do déficit de R$ 1.007,6 trilhão foi com o pagamento de juros. Isso significa que a praticamente todo resultado negativo das contas públicas decorreu do custo financeiro do endividamento e não do gasto governamental.
A taxa Selic próxima de 15% ao ano exerce impacto direto sobre o crescimento da dívida pública. Estimativas do Banco Central indicam que cada elevação de um ponto percentual na taxa básica de juros, mantida por doze meses, pode elevar o custo da dívida pública em cerca de R$ 50 bilhões ao ano. Nesse contexto, observa-se um perverso mecanismo de retroalimentação: juros elevados aumentam o custo do endividamento público, contribuindo para a expansão da dívida, que por sua vez é utilizada como justificativa para a manutenção de juros elevados.
A sustentabilidade fiscal não depende exclusivamente da contenção de gastos públicos. A inflação estando controlada, o fortalecimento da atividade econômica com aumento dos investimentos levará ao aumento do emprego e da arrecadação o que contribuirá para a redução relativa do endividamento público. O debate sobre a dívida pública precisa considerar que sua dinâmica depende da interação entre resultado fiscal, crescimento econômico e custo financeiro do endividamento. Quando as taxas de juros permanecem elevadas por períodos prolongados, o impacto sobre o estoque da dívida tende a ser significativo, reduzindo o espaço fiscal para investimentos públicos e políticas sociais. Nesse quadro, é necessária a imediata redução das taxas de juros.
Odilon Guedes – Economista, Mestre em Economia PUC/SP . Conselheiro do Conselho Federal de Economia – COFECON
Antônio Prado – Economista, Doutor em Economia UNICAMP é Vice Presidente do Conselho Regional de Economia SP – CORECON/SP
